Geografia e significado na estátua urbana
Trata dos aspetos geográficos inerentes ao estudo das obras de estatuária integradas nas localidades europeias: a localização e inter-relação cartográfica, o significado e o espaço geofísico e cultural que integra as obras, a História, a Estética e o próprio deslocamento geográfico necessário para observá-las.


Imagem:Localização cartográfica de algumas obras referentes a bebidas espirituosas em alguns locais da Europa, Montagem do autor com base nas recolhas efetuadas no doutoramento.
O estudo e a apreciação da estatuária urbana, além da história e da estética, estão fortemente ligados à geografia e ao significado. Podemos observar um número elevado de estátuas que iluminam, no sentido em que ilustram, as humanidades e o direito, as religiões, e até as ciências, moldando desta forma a cultura e participando na constituição dos quadros de mentalidade, locais e globais. E fazem-no em pontos bem definidos nos diferentes territórios.
Um exemplo está em Almodôvar na estátua de Homenagem ao sapateiro[IDE:156], do escultor Aureliano Aguiar, de 2001, que tem uma amplitude significante que se estende das oficinas manufatureiras de calçado na localidade, a toda a região mineira do Baixo-Alentejo, em Aljustrel, Minas de S. Domingos, Castro Verde e Minas de Neves Corvo, os principais clientes das oficinas de sapataria da região, até aos anos 70 do século passado. O significado identitário da obra aumenta a sua amplitude geográfica ao sinalizar a serralharia, numa região mineira e agrícola, com oficinas de serralharia em todas as localidades para responder à demanda da industrialização do país, pelos anos 50 e 60. O ofício da serralharia, não sendo o significado primário da obra, é um claro significado adjacente, que se apresenta na técnica de construção da obra que é a própria serralharia. Pois a estátua figurativa, representando a pose tradicional de trabalho do sapateiro é uma assemblagem de sucata ferrosa, soldada por processos de serralharia civil. E está ali a composição estatuária a lembrar que por toda a região mineira do Baixo Alentejo os trabalhadores calçavam sapatos das manufaturas de Almodôvar.
Imagem: Representação estatuária do sapateiro, em Almodôvar. Foto do autor.
A amplitude geográfica do significado de uma obra de estatuária urbana é muito variável. Há obras que representam um país inteiro, como a Estátua da Liberdade nos E.U.A. ou a Den lille Havfrue (A Pequena Sereia), escultura de Edvard Eriksen inaugurada em 1913, um bronze com 1,25m de altura, em Langelinie, Copenhaga. Figura inspirada no conto infantil com o mesmo nome, de Hans Christian Andersen (1805-75), foi modelada tendo como modelo da cabeça a bailarina Ellen Price que fazia de lille Havfrue no H.C. Andersen-ballett, do ballet Fini Henriques e como modelo do corpo, a mulher do próprio escultor, Eline Eriksen. Após a sua implantação, tornou-se rapidamente muito popular, hoje Den lille Havfrue [IDE:174] (A Pequena Sereia) em Copenhaga «É o simbolo da Dinamarca, tal como a Torre Eiffel e a estátua da Liberdade são o símbolo da França e dos EUA, respetivamente» [In: http://hjem.get2net.dk/OSJ_INDEX/hybenrose/havfruen/eng/mermaid.htm (2005)]
Imagem: Den lille Havfrue (A Pequena Sereia). Foto do autor.
Há obras que representam toda uma região, como o monumento estatuário a Ovídio em Constança, de 1887, da autoria do escultor italiano Ettore Ferrari, que representa toda a região da Dobruja, antiga Cíntia menor, no tempo do Império Romano. Foi mesmo edificada com essa finalidade, após a saída da administração otomana da quase totalidade dos Balcãs (ver atigo na home page).
Há estátuas que representam localidades, como o Berliner Bär (urso de Berlim), [IDE:369], em Dreilinden, na comarca berlinense de Zehlendorf, com 85 centímetros de altura, uma estatueta portanto, posicionada sobre um pedestal de granito com cerca de 2,50 metros. É uma escultura da autoria de Renée Sintenis, datada de 1956. Existem várias e diferentes representações estatuárias do urso enquanto símbolo de Berlim, mas este Berliner Bär, parece ser o mais típico e o que aparece mais reproduzido.
Assim como o Vaticano marca a presença da latinidade nos vários países como a Roménia ou a Espanha e alguns da América latina através da oferta de cópias da loba do capitólio também Berlim celebra a sua amizade com outras cidades através da oferta de obras de estatuária urbana na forma de ursos de Berlim, como em Düsseldorf na Berliner Allee ou em Madrid no Parque de Berlim.

Imagem: Berliner Bär (urso de Berlim). Foto do autor.
E há também representações estatuárias que tão só representam um local específico, como a Fiskegumman (Peixeira) da autoria de Clarens Blum, em granito, de 1949, em Norra Vallgatan perto de Älvsborgsbron, em Malmö na Suécia. Esta obra, representando uma peixeira, serve para fazer lembrar aos transeuntes que no passado, já ali, naquele lugar específico, foi um agitado mercado piscícola.
Imagem: Fiskegumman (peixeira). Foto do autor.
Verificamos assim com frequência que a estatuária urbana sinaliza os lugares e os territórios com significados importantes para as comunidades humanas que os habitam. Muitos dos significados representados pela obra de estatuária urbana fazem parte ou são afins dos diversos tipos de património.
A referenciar o património natural, podemos encontrar em Odemira, a representação de uma árvore, identificada por muitos como sendo um chaparro, espécie local, árvore de crescimento lento, protegida no nosso ordenamento jurídico, e fonte da riqueza que é a cortiça. É da autoria de Aureliano Aguiar, o mesmo escultor da Homenagem ao Sapateiro em Almodôvar, situa-se na Rotunda do Lagar e foi Inaugurada em Abril de 2000.
Apresenta-se uma imagem em plano médio para se observar toda a obra e outra em grande plano para se observarem os elementos férricos que compõem a assemblagem da figura.
Imagem: escultura de sobreiro em Odemira. Foto do autor.
Imagem: escultura de sobreiro em Odemira, pormenor. Foto do autor.
A representação e sinalização do património cultural e do património cultural imaterial é vastíssima. Em toda a Península Ibérica, talvez com mais quantidade e variedade em Portugal, encontramos interessantes representações estatuárias de profissões e atividades humanas afins. Por exemplo, as representações conhecidas da arte rendeira estendem-se de Peniche aos Pirenéus. Na cidade de Peniche, o Monumento de homenagem à Rendilheira - é uma homenagem às rendilheiras da região, tradicionalmente ligada às rendas de Bilro desde o século XVII, onde todos os anos o município de Peniche celebra o Dia da Rendilheira de 15 a 18 de Julho. Em termos estéticos, a estátua da rendilheira de Peniche tem a particularidade de ser esculpida em pedras de diferentes cores, para as diferentes partes do conjunto que forma a obra: banco, rendilheira, almofada dos bilros e o cavalete que a suporta. E exceptuando o monumento à rendilheira de Vila do Conde, que é apresentada sentada diretamente no chão, sem banco algum e sem cavalete para a almofada, todas as outras que tive a oportunidade de registar, são apresentadas sentadas num banco defronte da almofada sobre um cavalete: em Peniche, em Portugal, em L’Arboç na Catalunha, Espanha e em Andorra a Velha, no Principado de Andorra.
A representação estatuária da rendilheira de Vila do Conde, obra de 1993, da autoria do escultor Ilídio Fontes e do arquiteto Ricca Gonçalves, apresenta-se como uma composição muito bem sucedida, muito expressiva e muito pregnante, na forma e no significado. O investimento da localidade numa obra tão significante para sinalizar uma atividade que remonta ao Século XVII, mostra bem a importância desta atividade na região, que tal como L’Arboç, dispõe do seu Museu das rendas, neste caso na antiga Casa do Vinhal, anexada à Escola Secundária “José Régio”, onde esta forma de arte rendeira continua sendo ministrada. Vila do Conde também celebra o “O Dia das Rendilheiras”, criado em 1992, comemora-se no 2º Domingo, aquando a realização da Feira Nacional de Artesanato.

Imagem: estátua da rendilheira, Vila do Conde. Foto do autor.
Também a Arte Xávega, classificada em Espinho como Património Cultural Imaterial e como património local na Costa da Caparica, em Almada, vêem no seu espaço público a iluminação desta tradição piscatória pela via da estátua urbana! Entre as várias representações da Arte Xávega na região de Espinho, destaca-se pela teatralidade e dramatismo o Monumento às Companhas Arte da Xávega junto à praia de Esmoriz, da autoria de Rui Anahory, inaugurada em 1997 por Armando França, então Presidente da Câmara Municipal de Ovar. Nesta representação estatuária as figuras estão quatro agarradas ao barco na região da popa, dois homens e duas mulheres, e duas figuras dentro do barco que se encontra com a proa bastante levantada no movimento de subida da onda, que nas praias são perpendiculares ao barco e paralelas à borda de água. O movimento visual da composição é acentuado pelas direções diagonais dos dois remos, bem visíveis na composição, e do bico da proa.

Imagem: Companhas Arte da Xávega, Praia de Esmoriz. Foto do autor.
Há uma ligeira diferença entre estes dois monumentos em termos de etnolinguística: no caso de Esmoriz, escrito no próprio monumento está “Companhas Arte da Xávega” enquanto na Costa da Caparica aparece como, “monumento da arte Xávega”. Conseguem-se localizar nas páginas Internet locais estas diferentes designações.
O monumento da arte Xávega na Costa da Caparica, intitulado Os pescadores, apresenta um momento diferente desta atividade piscatória, através de uma composição com um conjunto de quatro figuras pedestres sobre um plinto triangular, representando o esforço de alar as redes. O que torna notável este conjunto é também a sua teatralidade e dinâmica, com muito movimento visual sugerido na rima da inclinação dos corpos e no elemento direcional da base triangular que retrata bem o momento específico desta atividade piscatória. Obra de arte em bronze, da autoria do escultor Jorge Pé Curto.

Imagem: Monumento ao pescador, Costa da Caparica. Foto do autor.
Portanto, verificamos que a Estátua Urbana é uma fonte artística de vida e inspiração e um poderoso recurso semântico dos territórios e das diferentes comunidades humanas. Notamos através da comparação das diferentes situações observadas nas representações estatuárias em diferentes países, regiões e culturas do espaço europeu que esta é uma forma de arte mormente vinculada ao poder local e o seu mecenato existe em especial no plano autárquico. Foi a autarquia de Constança (Roménia) que encomendou o monumento a Ovídio, a autarquia de Almodôvar que encomendou a representação estatuária do sapateiro, ou a autarquia de Sulmona (Itália) que encomendou a cópia da estátua de Ovídio de Constança! Mesmo quando o mecenas não é diretamente a autarquia, como no caso do Monumento a Dante em Florença, financiado por subscrição pública ou na imagem De Karnster (Manteigueira) em Leeuwarden na Frísia dos Países Baixos financiada pelo Rabobank local, é a autarquia quem autoriza e na maior parte das vezes decide sobre o local. Podemos pois com a maior segurança considerar a estatuária urbana como a forma por excelência da arte autárquica!
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